Mais mimos e menos ibuprofeno

Às vezes deixamos os problemas pessoais em mãos de um comprimido. É o caso de alguns dos protagonistas de “Efeitos Secundários”, um romance que converte os dez medicamentos mais vendidos em personagens de carne e osso. Almudena Solana pára no imprevisível, aquilo que vai além dos grandes acontecimentos: as sequelas da vida

EFE/David Fernández

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“Qual a melhor radiografia da sociedade que analisar os medicamentos mais consumidos?”. A escritora Paula Solana, autora de “Efeitos Colaterais” (Editora Planeta) justifica, assim, sua decisão de transformar dez fármacos em dez pessoas com vidas entrelaçadas.

Adiro tem dores de cabeça, Paracetamol sofre a doença de alzheimer e Ventolín recorre a seu inalador para poder tocar o saxofone. “Eles mesmos são o medicamento e a pessoa em relação com o seu medicamento”, diz javier Solana.

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A trama prende o leitor em uma teia de aranha, cujo fio condutor é Sintrom, um observador nato que desenvolve a amizade com um farmacêutico. É lá, na farmácia, onde Sintrom ouça a história de várias pessoas que convivem com o seu medicamento “como convive com um fumante com seu charuto”.

Algo mais do que um farmacêutico

“As farmácias têm grandes conversas, como em cozinhas”, afirma javier Solana. Esta reflexão se reflete em uma obra que dá grande importância ao papel do farmacêutico.

O amigo de Sintrom conhece muito bem as pessoas que entram na sua farmácia. Este fato não surpreende, já que os medicamentos falam sobre a vida de quem os consome, tal como acontece no romance.

“Eu sou um convidado em farmácias de meu amigo. As pessoas lhe conta sua vida na dose, ele não mentem ( … ) o Que há por trás desses princípios ativos que nos mantém à tona?”

Uma história de ficção inspirada na realidade

“Eu estou sempre com os olhos muito abertos e me inspirou em o que vejo a cada dia. Todos os temperos do cocktail estão na vida. Apenas tem que encontrá-los”, explicou Solana.

“Começou a tomar Nolotil a noite da última ceia com a que viria a ser sua futura mulher (…) Nolotil cápsulas é usado para o tratamento da dor aguda pós-operatória e pós-traumática. No seu caso, mais bem que poderia ser para o segundo.”

Os efeitos secundários não apenas nos afetam a tomar certos medicamentos. Todo ato tem suas consequências, muitas delas imprevisíveis, e nelas incide Almudena Solana:

“É um canto para as estradas secundárias, o amor que apareceu na primeira esquina, quando esperava para o outro, o amigo que perdoa diante de uma decepção. São as exceções da vida”.

“Qualquer pequeno golpe deixa uma lembrança na minha pele”.

Não obstante, toda história de ficção necessita de uma base que a sustente. “Para mim, a documentação é muito importante antes de dar o salto para a ficção, para assim poder mentir com verossimilhança”. A autora estabelece suas preocupações como ponto de partida da investigação.

Quando os fármacos substituídos carícias

Paracetamol recorre a uma pastilha para aliviar os falsos dores, mas não é a única. Seu personagem pode representar muita gente que “tomar Ibuprofeno quando talvez o que precisa de verdade são mimos. O médico lhes dá essa carícia que não têm volta“, destaca o escritor.

“Adiro, uma mulher solitária, sempre acompanhado pelas redes sociais (…) Toma trinta comprimidos revestidos que vai raptar parcialmente trinta dores. A maior dor, toma dois ou toma-se igualmente, embora não seja muito problema”.

Solana considera que é um erro deixar nas mãos dos outros à sorte ou infelicidade de cada um. “Não se pode deixar tudo nas mãos dos medicamentos, porque isso não funciona. Há que tomar as rédeas da vida para sair adiante”.

Folheto vital

Às vezes levamos na falta de um manual de instruções da vida. Composição, utilidade, modo de emprego… Qual seria o seu enunciado? “Ânimo, você pode com isso“, sugere Solana.

Onde está a magia da vida? “Não tanto nas mãos dos que cuantifican, avaliam, estabelecem e fazem decisões, mas também no que te surpreende em qualquer momento, não programado”, conclui.

Almudena, javier Solana, irrompe no mundo literário com “O currículo de Aurora Ortiz” (2002), uma novela levada ao teatro na Inglaterra (2011). Efeitos Secundários é a sua quarta obra, à qual dedicou quatro anos de trabalho. A autora apresentou o livro na Real Academia Nacional de Farmácia.

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